Muitas pessoas usam a expressão
“Estou cansado” quando sentem que precisam dormir. Outras, quando tem problemas
de esforço físico ou saúde mental e além de significar simplesmente que estamos
precisando de um descanso, também pode indicar que precisamos enxergar a nossa
preguiça. Não são poucos os que se queixam da desconfiança e julgamento de
amigos, familiares e empregadores e quase sempre veremos apontar que o nosso
cansaço não passa de pura preguiça, no entanto, só o dono da dor sabe o quanto
dói, nesse caso, quanto a mim, na maioria das vezes ela significa muito mais. Tem
uma equivalência perturbadora, e denota carência e solidão... pois sofro de um
modo tal que só os poetas entendem... Eles sabem o que sentem, sem a
mediocridade do senso comum.
Acontece que ultimamente, nada
mais parece fazer sentido... Depois de tanto tempo, percebi que eu sigo em
total desamparo. Passando horas preso num quarto bucólico; pouco comendo; muito
lutando pra insistir em manter os meus olhos abertos; às vezes mal me levanto
devido as pernas ficarem dormentes, tamanho a dor ciática…. Rastejo em busca de
um café, de um pão… sendo atormentado todo dia por flashes das porradas na
minha cara. Meu Deus, eu me tornei um cansado!
Estou cansado de gente dizendo
que minha palavra é de má intensão. Cansado dos flashes das pessoas demonstrando
que não se importa... cansado de fingir que está tudo bem. Cansado de morar com
gente que me odeia. Estou cansado sem rumo e aflito, lembrando dos sussurros daqueles
que me consideram um nada. Cansado de deitar e ver que poderei acordar sem chão,
sem teto. Cansado de sonhar pra cima e pra baixo. Isso quando a ansiedade me
deixa dormir. Às vezes eu queria que Deus tivesse me dado sucesso e fama e não me
torturado com tanta gente ignorante ao meu redor. Não tenho forças pra nada com
eles; já tentei demais e está quase impossível manter esse fardo. Por isso estou
cansado! Há um Poema de Álvaro de Campos (Heterónimo de Fernando Pessoa) que
diz assim:
Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.

